A vida tem dois sabores, é café e menta. Café para estimular, e menta para dar sabor. E poderia ser diferente mas prefiro hoje assim, é deste jeito que a vida anda se traduzindo. Café-estímulo, vontade, desejo, o ir em frente, caminhar, transpor, sobrepor, repor; menta-sabor, gosto, prazer, papilas, cheiro, pele, sentidos.
A todo momento momento somos impelidos pela vida a um movimento duplo, paradoxal, somos carregados por um pensar de que, para vivermos, precisamos a todo momento pesar entre viver e não viver. E viver aqui é descobrir-se como amante da vida, peregrino, caminhante, não há possibilidade de real vida enquanto no caminho estiver sentado à margem. É preciso tomar o rumo da estrada principal, ao longo dela ultrapassar os obstáculos e, na vontade da cafeína, prosseguir. O café nos desperta da não-vida, do estado vegetativo, deste deixar a vida passar. Vegetando nas expectativas do "ideal de vida" dos outros. Como se em fórmulas matemáticas estivessem os segredos de uma vida. Nos tratam como dementes, imbecis incapazes, daí o não-viver, ou o meio viver, pode-se até viver, mas, peraí "daí você não passa!". O café nos entrega força para a descoberta do real, e, no real, nos encaminha para a busca da realidade que nos apraz. Nos leva para além desta satisfação superficial e hipócrita de propaganda de cigarro. Ok, estamos já cheios de vontade, mudança para o novo, mas, e o gosto? O sabor? A poesia?
É a menta e o seu poder transformador, gosto que abre o apetite, cheiro que desentope vias nazais para que o ar da vida entre, tomamos o fôlego é na menta. Se sem café não vivemos, sem menta não passamos que seres mecânicos, prontos a uma revolução, mas indiferentes aos sentimentos, ao gosto pela vida. Mais que gostar da vida, é preciso gozar com a vida. Não uma vida vazia simples, mas uma história pela qual tenhamos o prazer de contar. Creio no aqui, hoje, agora, momento para degustar o que há para provar. O gosto pela vida nos direciona a um amanhã esperançoso e um hoje delicioso. Quando as amarguras vem, um jiló no meio do caminho, nos preparamos entam para os tascar as folhas de menta que acumulamos nos bolsos. Há de se vencer as amarguras da vida pondo-lhes um pouco do sabor que temos acumulado. As mentas, os prazeres, o sabor serve também para as horas ruins. Quando sair para o mundo é doloroso, é necessário esfregar todo o estoque de menta pelo corpo e fazer com que o mundo se incomode com tal cheiro, tal sabor.
Não há porque não saborear o que há de mais gostoso, com o café vivemos, com a menta nos apaixonamos pela vida. Gozar da vida é um movimento de vontade mais prazer. Só menta e somos depressivos sonhadores, só café e seremos mecanicos fazedores, transformadores. Um pouco dos dois... e não há limites para esta vida.